terça-feira, 15 de julho de 2014

Seleção de 198,7 milhões

Escrito por Carlos Santos Junior

Que o nosso país têm, ainda este ano, coisas mais importantes pra se conquistar do que um campeonato de futebol, isso todo mundo concorda. Mas não podemos ignorar o fato do futebol fazer parte da nossa cultura. E todos nós, dos mais simples aos mais letrados, do mais pobres aos mais ricos, sentem na pele o amor (platônico ou escancarado) pela seleção e por tudo que esse universo verde e amarelo que a copa representa.



É o escape da dor brasileira em ver e viver em hospitais sucateados, escolas abandonadas e presídios lotados. É a fuga da vergonha de viver em uma realidade em que os ladrões invadem as casas e os plenários. Contemplar uma fantasia é bem melhor que enxergar uma "justiça cega" que condena um pai de família, que num lapso de desespero erra e rouba uma margarina pra alimentar seus filhos, e ao mesmo tempo absolve mensaleiros bilionários. Gostamos de mergulhar nas ficções, e a maior parte do tempo de nossa audiência prova muito bem isso.

Mas não quero ser demagogo nem hipócrita agora que o Brasil perdeu de lavada da Alemanha, e dizer que não gosto de futebol ou que a COPA foi somente "panis et circenses", coisa de "otário" manipulado pelo sistema. Torci e torcerei muito pela seleção, meu "orgulho de ser brasileiro" não terminou quanto os 7x1 foi consolidado pelo apito do juiz. Vou guardar o que foi lindo na minha seleção: a chance e redenção da honra de um guerreiro goleiro, a dor de um jovem atacante sentida de forma sincera por toda uma nação, a humildade do coração menino de um zagueiro que nos representou com tanta raça e encheu de orgulho o futebol e o coração desse país.

Eu fico com a realidade que não passou na Globo, com a alegria demostrada nas ruas decoradas de verde, amarelo, azul e branco. No empenho e dedicação dos voluntários que trabalharam com amor. No sonho das crianças que apertaram a mão do seus craques. Na reunião das famílias, dos amigos, suas imagens postadas e risos no whatsapp. Fico com o nosso grito de gol, nossa celebração, nossos momentos de tensão e desespero na espera dele. Fico com nosso choro de desclassificação, fico com a esperança de que 2018 dias melhores virão. Guardo a fé de que um dia essa nação faça celebrações maiores que essa, mas não para celebrar um time de 11, mas um time de 3 em um. Celebre o amor, as famílias restauradas, as vidas curadas. Gol de placa no auxílio dos sem-esperança e ganhar de lavada da corrupção, do engano e da morte.

Creio que essa copa mostrou a nós e ao mundo inteiro o quanto somos belos, o quanto somos capazes de fazer as mudanças que tanto precisamos viver. E também nos lembrará da constante capacidade que o brasileiro tem de se superar, de se erguer a cabeça e seguir em frente mesmo nas situações mais terríveis. Então, parabéns para cada um de nós, dessa seleção de 198,7 milhões de brasileiros.